Vagner de Almeida
SOU a menina que nasceu ontem em um corpo de meninoSOU a mulher que finge não ver o que está a minha volta
SOU aquela que busca a luz na escuridão.
SOU o resumo de tantas vidas em minha própria vida.
SOU simplesmente Eu em teus olhos e coração.
Nasci como menino
Cresci como um menino em um casulo feminino.
Corri contra o tempo com botas de soldados armados.
Combati leões e dragões no tempo que deveria ter corrido na primavera da minha idade.
Foram muitos murros em pontas de facas afiadas.
Menino! Comporte-se como menino!
Na minha casa macho é macho!
Homem não chora!
Mulherzinhas choram!
Eu já era uma mulher, menina, miúda.
Corri contra o tempo e das pessoas.
Sofri maus tratos físicos, psicológicos e resisti.
Não sei se me fortaleci ou não, mas sobrevivi.
Mamãe rezava e me benzia
Papai batia e humilhava
Irmãos xingavam e caçoavam.
Irmãs escravizavam e excluíam
Parentes condenavam, buliam e usavam como queriam.
Vizinhos entre escárnio e tapas, risos e empurrões me apontavam como estranho.
Tempos passaram e passei a ser não mais o estranho, mas sim a estranha.
Cresci e vi gerações crescerem também.
Vi mortes, cortes e brechas no sistema social.
Faceei o desabrochar de tantos “Eus” esfacelados.
Marquei ponto nas esquinas da vida e nas filas dos aflitos.
Fui no enterro de desconhecidos como eu.
Proibiram-me de chorar pelos meus.
Saudades não consigo guardar, nem as feias ou bonitas.
Lamento os medos e alegrias que me proibiram na vida.
Cresci com a coragem camuflada no terror.
Tinha medos, tenho medos, terei medos.
Durante todo o meu percurso de vida serei uma fugitiva de mim mesma
Mas me encontrando todas as vezes que me perco, por que sou forte e rocha.
Hoje quem sou?
Transexual, mulher, sim Senhor!
Re-visitei minhas entranhas e de lá tirei a minha Alma.
Incomodo?
Te vasculho?
Te embriago?
Te seduzo?
Te possuo?
Te espelho?
Não é o meu problema!
Assim, eu sou!
Livre como Fênix as duras penas do sistema.
Meu nome?
Social ou de luta?
Suzette, Marilyn, ou como queiram me chamar na hora do prazer ou do deboche!
Social Maria da Penha, Mulher, Cidadã, Brasileira tal qual você.
Desarma-se e construa a sua própria vida.
Como assim construí a minha.
Você extremista, racista, transfóbico inconformado
É um ser lamentável.
Necessito ir, pois a vida continua.
Boa noite, Bom dia, Boa trajetória de vida.
Maiores informações sobre o trabalho do autor visitar o site:
www.vagnerdealmeida.com